domingo, 9 de maio de 2010

O absurdo do luto.

A partir da fala de uma pessoa que se encontra com a possibilidade de morte do pai, refleti sobre o absurdo do luto. Dentre várias palavras e um discurso, a pessoa disse: "Não há nada de bom em um luto".
Será que não? Essa pessoa se colocava como aquela que tudo organizava para uma família. Desde conflitos entre os familiares até bens materiais que lhe faltavam. Então, lhe disse que pode existir algo de bom neste luto.
Apreender que não sabemos da morte, da nossa, da do outro, pode ser interessante para contextualizar que a morte nos trás o mais radical do limite do ser humano. O não saber.
O absurdo do luto, pode ser colocado como a transmissão ética de que a falta existe. Não só existe, como também não tem como ser tamponada. Não há o que tape este buraco que a perda do outro nos causa.
O problema é que este buraco para alguns torna-se a pessoa toda. O buraco, é em algum lugar de si e não por inteiro.
E a vida, fica mais leve quando realmente sabemos que não sabemos.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Ainda sobre o diagnóstico estrutural...

Ainda sobre o diagnóstico estrutural, o que tenho para colocar é que:
1) Manejei a transferência de acordo com uma suposição de que o analisante estaria enquadrado em uma estrutura histérica. Foi uma catástrofe. Apontei a questão do desejo. Então, o sujeito começou a atuar e ficou 2 meses sem comparecer fisicamente à análise. Após alguns meses, percebi que o que se tratava não era simplesmente o desejo insatisfeito. Era o sujeito e sua alienação diria que total ao desejo do outro. A separação de um outro materno não estava nem estabelecida, nem vislumbrada.
2) Poderíamos pensar em uma psicose, mas o meu trabalho não foi nesta direção. Provoquei-o a falar do outro engolidor, abusivo. O sujeito foi se separando aos poucos de seu discurso e olhando seu lugar no mundo.
3) A conclusão que cheguei foi a seguinte: Enquanto me preocupei com o diagnóstico, perdi preciosidades do singular deste sujeito. De fato, não me dirigia na referência do analisante e sim a um modelo ortopédico e médico na posição de um saber que não diz, que não sabe.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Identidade feminina?

Será que já se perguntaram: sou homem ou sou mulher? Dois termos que definem através da linguagem uma "espécie" de identidade. Acontece que no discurso feminino algo escapa.
A mulher, apreende a feminilidade por uma máscara num constante tornar-se.
Essa máscara ou véu,revela um vazio. O que teria uma mulher para encobrir? Um corpo? Uma jóia? Uma fantasia? Um nada?
Sim, me parece que este nada que se refere a uma falta.A mulher se mascara para encobrir sua falta.
Suas jóias, maquiagens, lenços, roupas denotam a existência de uma falta de identidade feminina, de um não ao universal. A mulher quer ser única, particularizada, amada em seus maus humores, seus pijamas, suas rugas. Quer ser amada pelo seu singular.
Coloco que ela denuncia uma outra lógica. Uma lógica presa a linguagem mas além dela. Além de palavras e sentidos. A mulher trás o inominável, a dimensão socratiniana dos limites e verdades do inconsciente.
Sendo ela, não-toda submetida à lei, o sujeito feminino é um sujeito que se encontra dividido entre uma forma de estar no mundo ligada á linguagem, as regras e outra maneira que diz respeito ao que está fora do discurso. Algo escapa. Não há palavras que dêem conta de seu gozo.
Um sujeito que comporta uma lógica que não se refere ao ter ou não ter, tampouco ao ser ou não ser. Simplesmente outra.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Diagnóstico estrutural e a astrologia

Se você é do signo da histeria, você precisa do outro para dividir sua dor. O seu outro será impotente, não dará conta de suas angústias. Você tem uma relação com o desejo que diz respeito a mantê-lo insatisfeito, ou seja, não realizá-lo.
Caso tenha sido marcado por uma neurose obssesiva, você vive na dúvida, realiza vários rituais, é interessadíssimo em limpeza e ordem, se sente inválido muitas vezes, lê sobre tudo e mais um pouco, de vez em quando sofre ataques de pânico, enfim, quer controlar tudo e sofre sozinho.
Caso viva sob a égide da perversão, adora ver o outro angustiado. Se nasceu sob o signo da psicose, você é frágil, delirante e pouco afetivo.
Bem, não sobram muitas opções para a escuta de um psicanalista em sua clínica.
Problematizo a questão do uso do diagnóstico diferencial por parte dos analistas. Muitas vezes, se não tomarmos cuidado, deixamos de ouvir o paciente, assim como os médicos fazem em nome de uma epistemologia positivista.
Cada caso, é um caso. O sujeito que procura a análise está em sofrimento e com certeza é ele quem pode dizer e se quiser, saber de si. Muitas vezes, olhá-lo como histérico ou seja que patologia for, fecha as possibilidades de uma escuta clínica mais profunda e efetiva.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Lacan e Descartes. Aonde está o sujeito?

"Penso, logo existo". O filósofo com esta afirmação pressupunha que o sujeito se dava via pensamento. Lacan quando trata da constituição do eu, desde nossos primórdios, afirma que o sujeito está aonde não pensa. O quer dizer?
Quando falamos sobre nossos pensamentos, aprendizagens, não estamos nos referindo ao não saber. O inconsciente, nos fornece um saber que não se sabe ou que já foi esquecido. Além disso, um saber que tem um limite. Não dá para saber tudo.
Nesse sentido, o sujeito da psicanálise é um sujeito que não sabe o que diz, que está justamente aonde não pensa. Está no sentimento, nas incongruências.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A eficácia da psicanálise na questão do luto

A perda de alguém muito importante, a mudança de país, aborto, perda de emprego, perda de amizades. O processo de luto envolve não só a perda de alguém querido e amado. Situações de separação sejam elas de que tipo forem, são situações de luto. Uma análise pode ajudar alguém neste estado. Como? Antes de responder como, chamo a atenção para a questão contemporânea da ordem médica que diz: temos remédio para tudo, a felicidade total é possível, somos somente um corpo biológico. Por isso, se deprimimos é porque os neurônios não estão fazendo sinopses adequadas.
O discurso médico nos fornece uma idéia de que o sofrimento humano pode ser tamponado com medicações. E o luto? Também.
O luto é um processo que ao meu ver deve ser vivido. Tem um início que se manifesta com uma certa revolta em que o iniciante enlutado nega a idéia da perda. Briga com o objeto ameaçado de morte. Após este período o próprio sujeito diz: quero o melhor para o objeto amado. Ele vai abrindo mão do seu desejo para olhar o outro até que conclui o que pensa ser melhor não para si e sim para o outro. A partir deste momento ele provavelmente vai vivenciar a perda real. Chora, se deprime, sofre.
Quem nunca fez uma análise pode saber que este momento é um dos melhores para iniciá-la. Quem já fez, sabe de algo do inconsciente. Quem está fazendo, trabalha psiquicamente.
Como então a análise pode ajudar o sujeito enlutado?
Propiciando primeiramente que ele signifique o que perdeu. No caso da perda de alguém, que lugar esta pessoa tinha para ele? São perguntas que muitas vezes demoram a ser respondidas pela pessoa em análise. Por fim, chorar pelo que perdeu.
É importante pontuar o que perdeu para não ser tomado por uma idéia de que perdeu tudo. Discriminar o que exatamente perdeu é a chance do sujeito continuar apesar de sua dor. E continuar bem.

terça-feira, 9 de março de 2010

Esse é para ginecologistas

Dedico este texto aos médicos que lidam com uma mulher grávida.
Mesmo que saibam tudo ou quase tudo sobre gestação, deixo uma dica sobre suas falas e suas relações com a gestante. Jamais digam que a criança está pequena, grande, normal ou anormal. O casal grávido vive um momento imaginário, de angústias em relação á eles próprios como pais e em relação ao estranho. O estranho é o bebê. Qualquer fala referente à imagem da criança pode ser extremamente perturbadora para os pais. Claro que se a criança precisar fazer algum exame pois não está se desenvolvendo adequadamente ou parou de se desenvolver, o médico terá que indicar de alguma forma. Porém, vale falar em termos de ser cuidadoso, de dizer que o fato de ter que se submeter a algum exame extra, é comum, pois sabemos que é mesmo, que muitas pacientes já fizeram.
Não sabemos o que representa para uma mãe e um pai a fala que o filho está grande ou pequeno ou assim ou assado. Limitem-se a responder o perguntado.
Caso percebam algo de outra ordem na relação deles com a criança ou entre eles próprios, encaminhem a um profissional especializado.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Choro do bebê

Acreditem ou não, cientistas japoneses desenvolvem "tradutor" de choro de bebês. Choro relativo a dor, fome, sono. Esse "tradutor" não é a mamãe, não é o papai, não é a babá nem a vovó. É uma máquina. Um computador superpotente capaz de significar o choro do seu filho sem que você precise olhá-lo, decifrá-lo, enfim, estabelecer uma relação com ele. Aquele bebê que é sempre estranho pois é um ser novo no convívio familiar,vai ser traduzido por um computador.
Preocupante no mínimo não acham? Como vai ficar sua entrada no mundo simbólico? Será que os pais tem a idéia de que saberão tudo sobre o filho?
Caso afirmativo, é um tremendo engano. Caso negativo, menos mal.
Interessante pensar esse sujeitinho que acabou de vir ao mundo como um desconhecido que vai formando seu psiquismo na relação com outro. Outro ser, outro sujeito. Mas com uma máquina?
Quais seríam as consequências caso pessoas optem por utilizar o aparelho?
E Lacan dizia que as máquinas não falham. Não falhar, é o pior. O mal entendido, a falta, estão aí para nos fazer desejar, se fazer entender. Aí nasce a linguagem e a entrada no mundo simbólico.
Como afrouxa a amarração do sujeito neste mundo simbólico na psicose.
Bem, novas relações neste século XXI. A relação dos pais com o computador...

Dança- psicose- social

A dança, pensada como uma expressão artística pode ser um elo com o social na loucura. Os loucos não tem lugar em São Paulo. Os CAPS tentam, os psicólogos, também. Os médicos, medicam. Os analistam debatem.
Mas, a loucura pensada como uma rede, não tem lugar.
Ou melhor, o lugar destinado na maioria das vezes, é o da exclusão. Enquanto sujeitos paulistas, temos inúmeras dificuldades para acolher simples diferenças, quanto menos, psicóticos, paranóicos, delirantes, esquizofrênicos, autistas, bipolares, e o que mais tiver de patologias.
Em função deste não lugar, reflito e coloco que a dança, além de suas propriedades de prótese de constituição psíquica, ela pode fazer uma ponte entre aquele que porta a loucura e o social. Pintores famosos, escritores, dançarinos fizeram essa ponte sem "intenção".
Aposto na idéia da dança, do corpo que pode dançar, como uma possibilidade de inclusão na sociedade.
Ali, aonde não há voz, que se manifeste um corpo que possa falar,que possa publicar o não dito. E além disso, que possa posteriormente, se responsabilizar pela publicação.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Consequências da problemática escola-empresa. O impasse na aprendizagem

Destaquei o lugar do professor como central na relação com os pais, com a direção e principalmente como o aluno.Continuo.
O professor tem uma certa relação particular com a matéria que ensina. Exatamente esta relação, é, a que será captada pelo aluno. A forma como ele trasmite sua relação com a matéria, poderá ser propiciadora ou não do desejo de saber do aluno. Nossa! Quanta responsabilidade o professor carrega! Isso mesmo. Tratemos bem os professores!
O aluno, por sua vez, tem sua família de origem, valores, relações, questões próprias e gostos particulares. Aptidões específicas.
Ele chega em sala de aula e encontra um professor exausto, ou disposto a dar aula, ou desinteressado, ou com problemas pessoais, ou se sentindo desvalorizado por não ser reconhecido como gostaria, ou...
Neste campo, parece relevante refletir sobre um tema atual que se denomina fracasso escolar.Alunos disléxicos, sem limites, agressivos, desrespeitosos, hiperativos, depressivos, suicídas, alunos que não aprendem.
Coloco a seguinte questão: De que se trata esse fracasso escolar? De variáveis como o olhar da escola para o aluno, de suas relações em família, da demanda da família para a escola, do professor que flutua em seu humor, enfim, de que se trata? Existiria uma resposta afirmativa, fálica que diga: é isso?
Provavelmente não. Mas o que consigo e posso afirmar é que necessariamente o aprendizado passa pela relação do professor com o aluno. O aluno com suas preferências e tendências.O professor, com seu empenho e desejo de trasmissão. E o aluno que não se interessa pela matéria que o professor tanto ama?
Não me parece que o aluno deva gostar ou não de uma matéria. O que ele capta, é como o professor provoca ou não o desejo de saber.
O fracasso escolar me parece que pode ser localizado aí.Aonde? Neste campo da relação com o professor.
Podendo localizar a problemática é possível uma boa intervenção desde que demandada.
Deixarei em aberto uma questão que se refere á importância dada tanto pela instituição, como pelos pais, em relação á figura do professor. Afinal, o que ele vai transmitir,não será somente sua relação com a matéria, mas, também como capta o olhar dos pais,da direção e dos colegas e como se posiciona em relação a isso.
Assim, ela vai fazendo sintomas. Perde a voz, deprime, desiste da profissão...
Ele tem uma enorme responsabilidade sim, talvez por isso até a depressão muito comum em professores. Porém, ele deve atender várias demandas. Até chegar na relação que ele tem com a matéria, tem um percurso que passa pela direção.
Ou seja, para chegar no desejo de saber, a história parte dos pais que demandam seus desejos na escolha da escola e para ela. Depois, como a escola se posiciona em relação ao desejo dos pais. Pois dependendo da posição, ela massacra o professor. E digo e repito: O professor é a figura central quando se trata de sucesso ou fracasso na aprendizagem.