terça-feira, 12 de julho de 2011

Louise Bourgeois

Arte e psicanálise! Não é só na teoria que estes saberes se encontram. Basta olhar a exposição tão bem preparada do curador e arquivista que conviveu com Bourgeois. Nesta, a articulação entre conceitos psicanálíticos e o que a arte se presta estão explícitos. Temas como pulsão de morte, alienação, estádio do espelho, acting out, trauma, castração, desamparo estão presentificados e condensados em suas obras.
A difícil separação da mãe em seu desenho que enfoca o cordão umbilical e a dor e o ressentimento de uma mãe que parece não ter lhe dado o suficiente. Como sempre, afinal, as mães, faltam.
A destruição do pai. Que pai é esse? O que precisou destruir deste homem? Alguém tem alguma informação sobre suas relações com pai e mãe?
E sobre o trauma? De que se trata?
A exposição, mais levanta questões. Causa. Causa angústia, perturbação, questionamento, reflexões.
Angústia pelo seu aprisionamento em relação á sua constituição psíquica.
Perturbação da ordem real. Seus trabalhos suscitam nossas pulsões de morte.
Questionamento sobre qual seriam seus nós. O que lhe aconteceu?
Reflexões acerca da função da arte. Ela escreve que a arte é uma forma de sanidade. Sim. Também.
Cabe aos analistas, desenvolverem como se dá a articulação entre esses dois mundos. O imaginário exposto e pedindo tradução e o olhar diferenciado que uma análise pode nos dar.
Louise sabe mais que qualquer analista sobre esse enodamento.
A quem podemos nos dirigir já que a artista /analista não está?
Morreu.
A impressão é que ela matou o pai, foi engolida pela mãe. Realizou a fantasia de ser devorada por uma mãe aranha. Desejou esta mulher.
Simplisticamente, matou o pai e ficou com a mãe.
Presa em sua história, sua dor.
Retratou-a com detalhes, muito trabalho psíquico, e primorosidade.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Aonde está Wally?

Atualmente, por onde andamos, ciscamos, farejamos, festejamos, entristecemos, adoecemos, aonde está o sujeito? Para ter uma boa qualidade de vida, devemos nos alimentar adequadamente. Tem uma matéria na revista Joyce Pascowitch de março de 2011 que trata da ditadura da qualidade de vida.
Uma endocrinologista, aborda questões sobre a singularidade. Uma endocrinologista! Como?
Ela coloca que devemos conhecer nosso corpo e não se perder nos modismos. Uma pessoa com problemas de tireóide, que apresenta baixo colestererol, deveria comer gordura. Ou seja, a teoria de que a gordura é uma grnade vilã não se encaixa para aquele corpo que apresenta o particular de baixo colesterol.
Protetor solar em excesso faz mal pois tira a vitamina D. Quem tem problemas de tireóride pode apresentar carência desta vitamina e enfraquecer os ossos.
No mês de junho/ 2011 no programa da cultura do mesa redonda esta o grande Alfred Halpern. Ele, absoluto, sabia de tudo e afirmava que obesidade é doença e que todos os obesos devem tomar remédio.
Um jornalista injuriado perguntou: Porque medicar todos? e o absoluto respondeu: "São todos doentes, têem que tomar remédio para o resto da vida". Aqui, não cabe discutir questões científicas médicas, mas sim, abrir um espaço para questionar.
Pois bem, a minha pergunta é: Aonde está o sujeito no discurso médico? O sujeito, aquele que é singular. Impressionante como a medicina, de certa maneira, infantiliza o sujeito fazendo com que ele não se responsabilize pelo seu corpo, suas escolhas, seus desejos.
O que fazer diante da homogeinização, da pasteurização, da alienação?
Resistir. Apresentar um discurso de resistência e de responsabilidade. Cavar um buraco aonde o discurso capitalista tapa.
Pensar na indústria farmacêutica que faz do médico, um mero objeto. Que por sinal, faz do paciente, outro mero objeto. Irresponsável. Neste ponto, há uma transmissão: "Crio o remédio (indústria), você cria a doença (médico) e o paciente, não tem nada com isso. Goza alienadamente.
Aos paciente, lembrem-se: Aumento de gozo, perda de desejo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Serge André, Lacan e Freud acerca do feminino.

Serge André- um mestre do feminino, coloca que Lacan elevou a histeria a nível de estrutura de discurso. A bissexualidade da histérica significa um bi-gozo A bissexualidade não é uma divisão entre dois sexos e sim entre dois gozos, um todo fálico e outro o seu mais além.

Devido á ignorância da vagina, que Freud formulou, Lacan parece tirar a idéia da falta de um significante do sexo feminino. Lacan, segundo André nos faz compreender Freud: a vagina é ignorada enquanto sexo feminino, mas enquanto falo escondido, ela é conhecida até demais.

Libido:

Não há libido feminina, logo, Freud coloca esta questão do ponto de vista de uma divisão. A divisão de Freud é a seguinte: a libido é a mesma que anima homem e mulher, mas do ponto de vista de satisfação (ativo ou passivo) e do objeto (libido do objeto e libido do eu), a libido se cinde.

André coloca que Lacan retoma a questão da libido feminina, mas puxa-a para o lado do gozo. Haverá um gozo próprio da mulher? Destacando a questão da satisfação ativa e passiva, Lacan aponta a divisão entre dois tipos de gozo: um interditado pelo significante e ligado ao ser e outro permitido pelo significante e ligado à significação fálica.

Assim, Lacan desloca a questão da feminilidade do campo do sexo para o campo do gozo. A bissexualidade se torna um bi gozo e o problema se torna saber se há um gozo a mais além do masculino. Esse bi-gozo divide a libido e consequentemente o sujeito em duas partes: uma toda fálica e outra não-toda.

Quando Lacan diz que a mulher não existe, ele quer dizer que a feminilidade não é uma questão do ser, da existência e sim de um tornar-se. Se para Freud o furo do sexo feminino é totalmente recoberto, para Lacan, não. O falo não recobre a falta. Ele indica um além. Logo, não é um obstáculo á feminilidade, mas ao contrário, a condição de toda a feminilidade possível.




quinta-feira, 9 de junho de 2011

Continuação sobre o texto: "Intervenções sobre a transferência"

Por isso, Dora vai se identificando com o Sr k assim como com o próprio Freud. O segundo sonho foi um sonho transferencial no qual ela desperta com uma alucinação do cheiro de fumaça. Freud colocou que esta era uma identificação recalcada. Muito mais do que uma identificação, Lacan postula que essa alucinação correspondeu ao estado crepuscular do retorno ao eu. A relação com Freud e com o senhor k manifesta a agressividade do estádio do espelho.

Porém, mais do que a agressividade, Lacan coloca que Freud “deveria” ter se aprofundado na relação de Dora com a sra k. Ela, lhe fornecia a chave do mistério do feminino. Após Dora se aceitar como objeto de desejo esgotando o mistério que procurava na sra k, aí sim, poderia talvez estar “curada”.

“Assim com em toda mulher...o problema de sua condição, está, no fundo, em se aceitar como objeto de desejo do homem, e é esse o mistério, para Dora, que motiva sua idolatria pela sra k, do mesmo modo que em sua longa meditação diante de madona, e em seu recurso ao adorador distante, ela empurra para a solução que o cristianismo deu a esse impasse subjetivo, fazendo da mulher o objeto de um desejo divino ou um objeto transcedental do desejo, o que dá no mesmo”p221.

Lacan coloca que se numa terceira inversão dialética Freud tivesse orientado Dora para o reconhecimento do que era para ela a sra k, e esgotado o segredo de sua relação com ela, o tratamento caminharia. Freud identificou a falha na transferência e não na interpretação. Para Lacan a falha foi no adiamento da interpretação e não na transferência. Freud não se aprofundou no vínculo homossexual de Dora com a sra k.

Lacan entende que este não aprofundamento se deve que Freud reconheceu que durante muito tempo não foi possível se depara com essa tendência homossexual por preconceito. Assim, não pode agir de maneira satisfatória. Mesmo Freud reconhecendo que nas histéricas essa tendência é constante, ela não conseguiu agir neste ponto.

Lacan analisa que esse preconceito é o mesmo que mascara inicialmente a concepção do Édipo. Colocando o complexo como algo natural, sendo que não é. A primazia do personagem paterno no Édipo não é natural. Laca cita: “...é o mesmo preconceito que se exprime com simplicidade no conhecido refrão: tal como o fio para a agulha é a menina para o menino”p222.

Além disso, Lacan coloca que Freud simpatizava demais com o srk pois ele encaminhou o pai de Dora e se colocou demais no lugar dele. Por isso, voltava excessivamente na questão do amor que o Sr k suscitava em Dora. A partir deste olhar tendencioso, outro problema que Lacan coloca é: como Freud sempre interpretava que Dora se confessava sobre o Sr k, Dora se opõe. A crítica de Lacan: “...A sessão em que ele acredita havê-la reduzido a “não mais contradizê-lo”...é concluída por Dora num tom bem diferente. “Não foi grande coisa que apareceu”, diz ela, e é no começo da sessão seguinte que se despede de Freud.”223.

Lacan então se pergunta que aconteceu no lago que Dora adoeceu? Se prender ao texto para validar qualquer interpretação. O senhor K na cena do lago, só falou poucas palavras, porém, decisivas. “minha mulher não é nada para mim”. Dora deu-lhe uma bofetada. Se ela não é nada para você, que é você para mim? Que seria para Dora esse objeto que ela olhou durante anos com um certo feitiço e que ele acabou de romper com sua fala?

Após a cena, aparece a fantasia de gravidez. Essa fantasia, Lacan coloca que é comum nas histéricas em função de sua identificação viril.

A questão da transferência que Freud disse não ser possível de teorizar neste caso, é entendida por Lacan como a contratransferência. A contratranferência definida como a soma Dos preconceitos, paixões. O próprio Freud não entende que Dora pode ter transferido para ele o personagem paterno. Lacan afirma que interpretar a transferência é preencher com um engodo o vazio. Ao invés de ser uma questão Dora denegar a observação de Freud sobre as intenções dela com o Sr k, poderia ter sido uma questão mais favorável, conduzi-la ao objeto de seu interesse real- sra k..

Para Lacan, a transferência tem sempre o mesmo sentido. O de indicar momentos de errância por parte do analista, para orientá-lo, para colocá-lo em seu lugar, de não agir positivo.



 
 
 










Intervenção sobre a transferência

Escritos- 1951

Intervenção sobre a transferência.

Na experiência psicanalítica, o sujeito se constitui por um discurso que pode ser produzido pela simples presença do analista. Lacan coloca que “a psicanálise é uma experiência dialética, e essa noção deve prevalecer quando se formula a questão da natureza da transferência”p215.

O autor afirma que existe um temor por parte dos analistas em relação á verdade do que os pacientes falam sobre suas doenças. “Se Freud assumiu a responsabilidade...de nos mostrar que existem doenças que falam, e de nos fazer ouvir a verdade do que elas dizem, parece que essa verdade...inspira um temor crescente nos praticantes que perpetuam sua técnica” p.216.

O caso Dora, foi o primeiro caso em que Freud reconheceu o papel do analista.

Lacan, neste texto, fundamentará sua demonstração do caso Dora  por ele ser representante na experiência da transferência e ser o primeiro em que Freud reconheceu que o analista tem seu papel.

O caso Dora é exposto por Freud sob a forma de uma série de inversões dialéticas.
É a primeira vez que Freud usa o termo transferência.
"É por aí que tentaremos definir em termos de pura dialética a transferência chamada negativa no sujeito, como sendo uma operação do analista que a interpreta.”p.217.
Lacan coloca que Dora se torna um objeto de uma troca odiosa. Devida a relação de seu pai com a sra k, ela é oferecida ao Sr k. Seu pai, não percebe.
1)Primeiro desenvolvimento da verdade: Dora entrega-se á Freud, falando de suas lembranças com um rigor que contrasta com sua imprecisão biográfica que é própria da neurose.

1a) Primeira inversão dialética:
  
Freud diz á Dora: “Qual é sua própria parte na desordem de que você se queixa?” Então, aparece o segundo desenvolvimento da verdade.



2) Segundo desenvolvimento da verdade: Dora foi cúmplice e protetora vigilante para manter a relação dos amantes. Com seu silêncio, protegeu. Dora participou desta “corte”. Ela é objeto por parte do srk. “...a relação edipiana revela-se constituída em Dora por uma identificação com o pai, favorecida pela impotência sexual deste, aliás vivenciada por Dora como idêntica á preponderância de sua situação de fortuna”218-219.

“Essa identificação transparece, com efeito, em todos os sintomas conversivos apresentados por Dora, e sua descoberta dá início á eliminação de um grande número deles.”219.

Dora então de repente manifesta o ciúme da relação amorosa do pai. Que significa eliminar alguns sintoma e manifestar subitamente o ciúmes? O que tem haver?

2a) Segunda inversão dialética: Freud observa que não é o ciúme do objeto que prepondera, mas sim, que ele esconde um interesse pela pessoa do sujeito rival. Interesse esse, que se exprime de forma invertida. Daí, surge um terceiro desenvolvimento da verdade.



3) Terceiro desenvolvimento da verdade: O fascinado apego de Dora pela sra k. Pela sua maravilhosa brancura corporal, as confidências que ela ouve sobre a relação da sra k com o marido, trocas de amabilidades entre as duas, “como embaixatrizes mútuas de seus desejos junto ao pai de Dora.”p 219.

A pergunta então, é: Dora, se você se sente despossuída perante a sra k, como não lhe quer mal? Porque é tão leal á ela? Guarda o segredo. Com este segredo, vamos á terceira inversão dialética.

3a) Terceira inversão dialética: O valor de Sra k para Dora, o real valor deste objeto. O valor de um mistério, do mistério de sua feminilidade corporal. No segundo sonho esse mistério se evidencia. A imagem mais distante de sua infância que Dora alcança. A imagem dela chupando o dedo com o polegar esquerdo e com a mão direita puxando a orelha do irmão.

Lacan coloca que parece que esta, parece ser a matriz imaginária em que vieram desaguar todas as situações que Dora desenvolveu em sua vida. O autor continua dizendo que essa cena é uma ilustração da teoria que ainda surgiria em Freud dos automatismos de repetição. E que por essa cena, podemos tirar a medida do que siginificava para Dora mulher e homem.

“A mulher é o objeto impossível de separar de um desejo oral primitivo, e no qual é preciso, no entanto, que ela aprenda e reconhecer sua própria natureza genital. (é espantoso, aqui, que Freud não veja que a determinação da afonia, durante as ausências do Sr k, exprime o violento apelo da pulsão erótica oral no “enfim sós” com a sra k.”220.

Lacan postula que para ter o acesso do reconhecimento da feminilidade, seria preciso Dora a “assunção” de seu próprio corpo para que não fique despedaçada e constitua sintomas de conversão. Despedaçada no sentido do estádio do espelho.

Para se ter acesso ao corpo o único intermediário que ela teve foi a imagem original. Esta imagem original nos mostra que ela teve uma abertura para o objeto. Isto significa que o irmão (parceiro masculino) foi quem “permitiu” que Dora pudesse se alienar na alienação primordial. Esta alienação primordial é aquela em que o sujeito se reconhece como eu. Foi a diferença etária que permitiu isso.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Torções entre a clínica, a dança e a psicanálise.

A dança da vida, da clínica.
Entre as questões que a psicanálise se ocupa, no que se refere à dança, destacarei o fenômeno físico do dançar para articulá-lo com alguns aspectos da clínica e da teoria psicanalítica. Em psicanálise lacaniana, teoria e prática não se separam. Aliás, a teoria só recebe algum sentido se estiver diretamente articulada com a prática.
No fenômeno físico do dançar, poderíamos dizer que a dança, neste sentido é uma sequência de movimentos coreografados ou não em um determinado espaço. No eixo ou fora dele. Dançar, necessariamente envolve algum tipo de movimento. Como um corpo se move? Ou melhor, o que move um corpo? O desejo? A angústia? O gozo?
Como este corpo se relaciona com o espaço? Aqui, entram as questões da imagem. Em termos de constituição psíquica, incialmente nos identificamos com o outro. Para nos constituirmos, necessariamente dependemos do outro. Essa relação é o que denuncia como se dá o imaginário para cada sujeito. Na loucura, o sujeito que dança encontra-se em todos os lugares. Ele é tudo. Não há uma separação entre o que é um palco e o sujeito. O que é uma parede e esse sujeito. Tampouco, não há a noção de eu e do outro.
O sujeito que enlouqueceu, sofre de problemas com o eu. A dança, pode ajudar um sujeito a tratar seu eu, sua imagem despedaçada, seu corpo desintegrado. Ela forneceria o que Jacques Lacan, psicanalista francês, chamou de nome do pai. O sujeito louco, sofre da falta deste conceito. Falta de uma medida fálica. 
Ou seja, quando uma mãe tem um filho, este, vem obturar sua falta. É como se nada lhe faltasse nessa hora e ela teria a ilusão de completude. O filho capta o seu lugar no mundo. “Sou aquele que completa minha mãe”; “Sou tudo para ela”; “Sou um mero objeto, impedido de desejar. Só poderei desejar se perceber que algo falta no outro mãe.”
O desejo, nasce da falta. Logo, se uma mulher que se torna mãe desejar algo além do filho, o filho terá sua função paterna ou o nome do pai dentro de si. “Uma mãe só é suficientemente boa se não o for em demasia”.
Coloco que dança é como se fosse uma mãe boa. Aquela que nos propicia desejar. E ela nos dá amor. “Amar, é dar o que não se tem”. Amar é dar sua falta. Mais do que ser “completa”, a incompletude é o que nos move. Metaforicamente, a incompletude pode nos fazer dançar, desejar.
Na dança, ocorre também a questão da satisfação escópica. A mesma linha de raciocínio. Se somos incompletos, dançar pode nos satisfazer em sermos olhados, de determinada maneira, por determinadas pessoas. Como uma criança que quer ser vista e diz: “olha mãe, pai o que eu sei fazer!”.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Como funciona uma análise?

 A psicanálise é uma outra possibilidade de olhar o ser humano.
Um homem, uma mulher, são seres que podem ser vistos e pensados sob vários prismas: orgânico, psicológico, espiritual, antropológico, social, psicanalítico... 
Como a psicanálise trata, ajuda, cura e entende o sujeito? É importante destacar que a vivência de uma análise é algo singular, ou seja, cada sujeito experimenta e encontra uma parte de si “desconhecida”. Nesse sentido, não há como definir o que é uma análise e sim o que a psicanálise privilegia, cavoca, trata e nos transmite. podemos falar do que é a psicanálise.

1)Tratamento: O poder da fala

O tratamento psicanalítico se dá pela via da fala. Durante a sessão, o analista pede que o analisante fale o que lhe vier a cabeça, sem se preocupar com julgamentos morais. Para que isso ocorra, é preciso que o analisante coloque o analista em um lugar privilegiado, de alguém que tem um certo saber. Assim como quando se vai a um médico, tarólogo, pai de santo, padre, rabino, xamã. A idéia inicial é que o outro sabe.  Lacan denominou o saber do analista como: "Sujeito suposto saber".
Desde já, no entanto, destaco que o analista não sabe. Quando Lacan propôs a fundação de uma escola de psicanálise afirmou: "O não sabido ordena-se como quadro de saber". Assim como o analista foi um analisante, e pode saber algo, a idéia é que o saber está no próprio analisante. Uma posição humilde, pois, de fato, não sabemos do outro, não tiramos sofrimento de ninguém. Apenas ajudamos. Mas como? Como a psicanálise ajuda então?

2) Ajudar: O poder da escuta

Como o analista sabe que não sabe do outro, desde o início de um tratamento ele se coloca como alguém que pode ajudar, mas não no sentido de ajuda que conhecemos. A ajuda se dá pela via da escuta. Em sua escuta flutuante, o analista (que deve ter ou estar em análise) tem um saber inconsciente. Um saber de si que é essencial para ajudar o outro. Através de intervenções, silêncios e perguntas, ele ajuda o analisante a falar mais e mais até que o que é realmente importante é dito. Esse importante, não é o que importa ao analista, mas sim, ao sujeito que diz.
Cada um precisa e demanda um tempo para falar o que importa e com quem escolheu. Cada um tem um tempo de construção da sua questão. Ou seja, o analisante busca aliviar um sofrimento que julga não saber. Pede um saber ao analista. Demanda algo ao analista.  Á medida que fala, percebe que a questão que o trouxe é outra. Pode até ser a mesma, mas vai se dar conta de que o analista se não sabe, pelo menos, não responde.Neste momento, podemos pensar no conceito de cura que se liga à fala justa.

3)Cura: O poder do amor

O analista não é um médico que dá alta. Não é um psicólogo que avalia, não é um curandeiro que tira a dor do outro. Para a psicanálise, a cura vem do próprio sujeito que busca um tratamento. Ele se cura principalmente pela fala, pelo amor e pela responsabilidade de seu desejo. (Tema que será abordado adiante). Mas, que amor é esse? Jacques Lacan, psicanalista francês, coloca: “Amar, é dar o que não se tem”. Ou seja, amar, é dar a falta. Começamos a entrar no terreno de como a psicanálise Presupõe o ser humano.

4)O ser humano do ponto de vista psicanalítico: O poder do outro

Somos seres desamparados desde o nascimento. Pelo fato de dependermos de outra pessoa  para nos alimentar, dar amor, palavras, olhares desde que nascemos, apresentamos um estado faltoso. dependemos do outro.Precisamos do outro para nos... A questão é que nem todos receberam palavras, cuidados e foram olhados e amados como necessitavam. Aqui, começam alguns sofrimentos.

Dando um salto, de uma forma geral, a psicanálise entende que o ser humano é um ser de fala, linguagem, que é marcado desde antes do seu nascimento por palavras dos pais que já indicam a posição da pessoa no mundo. Por exemplo, na melhor da hipóteses, a mãe diz que terá um filho forte, que será médico, advogado, será alguém importante....

O sujeito já nasce neste cenário preparado pelos pais e se posicionará na vida sendo médico,  ou fazendo questão de não ser, mas em relação ao lugar que os pais o colocam.

Este ser que já nasce com um lugar marcado (mesmo que seja o da exclusão, por pais que não desejavam) é um ser de falta. Se algo nos falta, temos desejo. Ou seja, só desejamos porque a falta existe e ela é para todos. A psicanálise provoca e convida  o sujeito a falar de sua falta e consequentemente de seu desejo, pois, a idéia é que, o modo como nos relacionamos com nosso desejo, diz muito das nossas possibilidades de vida e de sofrimento.
Vejamos exemplos destas possibilidades:
-As depressões, podem ser uma saída covarde perante o desejo.
-O pânico/angústia pode encobrir a fixidez de cenas traumáticas ou desvelar a desproteção do desamparo fundamental ou....
-A angústia pode paralisar o sujeito, deixá-lo ansioso, perdido, irresponsável por seu desejo. Pode também fazer o sujeito produzir e avançar em sua análise.
-Uma mãe colada em seu filho, pode desencadear uma crise existencial ou surtos na medida em que o filho se separa dela e vai para o mundo. Nesse sentido, a criança tamponava seu desejo. Como ilusóriamente não havia falta (já que filho e mãe se completavam), não havia desejo.
Exemplo de sofrimentos e sintomas não faltam, porém, cada um sabe bem aonde o calo aperta.
Nem todos precisam de uma análise. Somente aqueles que sofrem, se angustiam, deliram, surtam. Mesmo que não tenham questões, uma análise pode servir para a construção de uma.

 

terça-feira, 31 de maio de 2011

"O não sabido ordena-se como quadro de saber"

Na proposição de 9 de outubro, destaca-se esta frase.
 Lacan se ocupando de fundar, "tão só" uma escola, propõe suas bases no não saber. Ele diz que é disso que se trata.
Porque não uma sociedade e sim, uma escola?
Pela via do saber. Ou melhor, do não saber. O analista no lugar transferencial de um sujeito suposto saber. Porém, o que o analista sabe, ou deve saber, é que ele não sabe. Como ele se relaciona com saber?
Além da análise, supervisão, uma escola. Locus do saber transmitido. Porém, há um impossível na transmissão.
Porque será que neste texto, Lacan joga a frase sobre o que é recusado no simbólico, retorna no real?
A sociedade, se organizando de maneira vertical induz a identificação com um líder. Um mestre do saber.
A construção acerca da fomação do analista que proponho é a seguinte:
Se em uma escola, trata-se da relação do analista com o não saber, a organização não será vertical. Ela se dará pela via da transferência de trabalho e na responsabilidade de cada um pela sua formação. Nesse sentido, o real não é excluído. O real presentificado em um final de análise cinde o sujeito invadindo-o e destituindo-o de seu ser a tal ponto que o analista se identifica com a falta a ser. Experimenta na carne, na linguagem, na imagem, um des-ser.
Em uma escola, ocorrem identificações e não a identificação.
Por esta via, o que concluo é que assim como a habitação da linguagem do lado feminino implica em uma singularidade, o analista contorna seu vazio com suas produções escritas. Concluo também que o nada que Lacan neste texto da proposição cita, é a falta de um significante que represente o analista. Assim com a mulher não existe, o analista, idem.
Em uma sociedade de médicos, temos médicos que podem ser definidos com determinados conceitos. E o analista? Como definí-lo?
Há um impossível. Não há conceito do que é um analista.
O que há é um vazio, um não saber. Não saber do desejo, saber que o outro não sabe e saber que não se sabe do outro.
Isso, faz toda a diferença na clínica...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Fim de análise: Desejo de passagem?

Lacan propunha a possibilidade do fim de uma análise. O fim, se daria quando ocorresse o desejo do analisante se tornar analista. O sujeito procuraria ativamente a se submeter ao passe lacanianao.
Ocorre a identificação à uma falta a ser, uma destituição subjetiva.
A questão colocada é que nem todos os analistas se colocam para tal.
Então, finalizando abruptamente, "o analista só se autoriza por si mesmo"(Lacan, J. Outros escritos).

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O analista autoriza seu não saber?

Pela via do não todo que ele se autoriza de si mesmo.


Por isso, é para nem todos que a função se presentifica.

Nem todos suportam o limite do inconsciente. Os que suportam, podem em determinados momentos não suportar.

E como é difícil!