terça-feira, 9 de março de 2010

Esse é para ginecologistas

Dedico este texto aos médicos que lidam com uma mulher grávida.
Mesmo que saibam tudo ou quase tudo sobre gestação, deixo uma dica sobre suas falas e suas relações com a gestante. Jamais digam que a criança está pequena, grande, normal ou anormal. O casal grávido vive um momento imaginário, de angústias em relação á eles próprios como pais e em relação ao estranho. O estranho é o bebê. Qualquer fala referente à imagem da criança pode ser extremamente perturbadora para os pais. Claro que se a criança precisar fazer algum exame pois não está se desenvolvendo adequadamente ou parou de se desenvolver, o médico terá que indicar de alguma forma. Porém, vale falar em termos de ser cuidadoso, de dizer que o fato de ter que se submeter a algum exame extra, é comum, pois sabemos que é mesmo, que muitas pacientes já fizeram.
Não sabemos o que representa para uma mãe e um pai a fala que o filho está grande ou pequeno ou assim ou assado. Limitem-se a responder o perguntado.
Caso percebam algo de outra ordem na relação deles com a criança ou entre eles próprios, encaminhem a um profissional especializado.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Choro do bebê

Acreditem ou não, cientistas japoneses desenvolvem "tradutor" de choro de bebês. Choro relativo a dor, fome, sono. Esse "tradutor" não é a mamãe, não é o papai, não é a babá nem a vovó. É uma máquina. Um computador superpotente capaz de significar o choro do seu filho sem que você precise olhá-lo, decifrá-lo, enfim, estabelecer uma relação com ele. Aquele bebê que é sempre estranho pois é um ser novo no convívio familiar,vai ser traduzido por um computador.
Preocupante no mínimo não acham? Como vai ficar sua entrada no mundo simbólico? Será que os pais tem a idéia de que saberão tudo sobre o filho?
Caso afirmativo, é um tremendo engano. Caso negativo, menos mal.
Interessante pensar esse sujeitinho que acabou de vir ao mundo como um desconhecido que vai formando seu psiquismo na relação com outro. Outro ser, outro sujeito. Mas com uma máquina?
Quais seríam as consequências caso pessoas optem por utilizar o aparelho?
E Lacan dizia que as máquinas não falham. Não falhar, é o pior. O mal entendido, a falta, estão aí para nos fazer desejar, se fazer entender. Aí nasce a linguagem e a entrada no mundo simbólico.
Como afrouxa a amarração do sujeito neste mundo simbólico na psicose.
Bem, novas relações neste século XXI. A relação dos pais com o computador...

Dança- psicose- social

A dança, pensada como uma expressão artística pode ser um elo com o social na loucura. Os loucos não tem lugar em São Paulo. Os CAPS tentam, os psicólogos, também. Os médicos, medicam. Os analistam debatem.
Mas, a loucura pensada como uma rede, não tem lugar.
Ou melhor, o lugar destinado na maioria das vezes, é o da exclusão. Enquanto sujeitos paulistas, temos inúmeras dificuldades para acolher simples diferenças, quanto menos, psicóticos, paranóicos, delirantes, esquizofrênicos, autistas, bipolares, e o que mais tiver de patologias.
Em função deste não lugar, reflito e coloco que a dança, além de suas propriedades de prótese de constituição psíquica, ela pode fazer uma ponte entre aquele que porta a loucura e o social. Pintores famosos, escritores, dançarinos fizeram essa ponte sem "intenção".
Aposto na idéia da dança, do corpo que pode dançar, como uma possibilidade de inclusão na sociedade.
Ali, aonde não há voz, que se manifeste um corpo que possa falar,que possa publicar o não dito. E além disso, que possa posteriormente, se responsabilizar pela publicação.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Consequências da problemática escola-empresa. O impasse na aprendizagem

Destaquei o lugar do professor como central na relação com os pais, com a direção e principalmente como o aluno.Continuo.
O professor tem uma certa relação particular com a matéria que ensina. Exatamente esta relação, é, a que será captada pelo aluno. A forma como ele trasmite sua relação com a matéria, poderá ser propiciadora ou não do desejo de saber do aluno. Nossa! Quanta responsabilidade o professor carrega! Isso mesmo. Tratemos bem os professores!
O aluno, por sua vez, tem sua família de origem, valores, relações, questões próprias e gostos particulares. Aptidões específicas.
Ele chega em sala de aula e encontra um professor exausto, ou disposto a dar aula, ou desinteressado, ou com problemas pessoais, ou se sentindo desvalorizado por não ser reconhecido como gostaria, ou...
Neste campo, parece relevante refletir sobre um tema atual que se denomina fracasso escolar.Alunos disléxicos, sem limites, agressivos, desrespeitosos, hiperativos, depressivos, suicídas, alunos que não aprendem.
Coloco a seguinte questão: De que se trata esse fracasso escolar? De variáveis como o olhar da escola para o aluno, de suas relações em família, da demanda da família para a escola, do professor que flutua em seu humor, enfim, de que se trata? Existiria uma resposta afirmativa, fálica que diga: é isso?
Provavelmente não. Mas o que consigo e posso afirmar é que necessariamente o aprendizado passa pela relação do professor com o aluno. O aluno com suas preferências e tendências.O professor, com seu empenho e desejo de trasmissão. E o aluno que não se interessa pela matéria que o professor tanto ama?
Não me parece que o aluno deva gostar ou não de uma matéria. O que ele capta, é como o professor provoca ou não o desejo de saber.
O fracasso escolar me parece que pode ser localizado aí.Aonde? Neste campo da relação com o professor.
Podendo localizar a problemática é possível uma boa intervenção desde que demandada.
Deixarei em aberto uma questão que se refere á importância dada tanto pela instituição, como pelos pais, em relação á figura do professor. Afinal, o que ele vai transmitir,não será somente sua relação com a matéria, mas, também como capta o olhar dos pais,da direção e dos colegas e como se posiciona em relação a isso.
Assim, ela vai fazendo sintomas. Perde a voz, deprime, desiste da profissão...
Ele tem uma enorme responsabilidade sim, talvez por isso até a depressão muito comum em professores. Porém, ele deve atender várias demandas. Até chegar na relação que ele tem com a matéria, tem um percurso que passa pela direção.
Ou seja, para chegar no desejo de saber, a história parte dos pais que demandam seus desejos na escolha da escola e para ela. Depois, como a escola se posiciona em relação ao desejo dos pais. Pois dependendo da posição, ela massacra o professor. E digo e repito: O professor é a figura central quando se trata de sucesso ou fracasso na aprendizagem.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Problemática levantada- escola empresa

Refletindo sobre o lugar metafórico da escola, coloco que a instituição escolar neste momento contemporâneo se tornou uma instituição nos mesmos moldes de funcionamento de uma empresa. O cliente demanda. A empresa, atende. A escola atende o pedido dos pais. Os alunos que captam essa demanda por sua vez, dizem aos professores: "Eu te pago, você deve fazer tal coisa..."
Os pais querem uma escola ou que insira seu filho no mercado de trabalho ou que privilegie a construção do conhecimento ou que mescle essas duas vertentes. A escola, por sua vez, faz esforços para atender o cliente, caso contrário, não terá alunos.
A problemática que levanto é sobre este atender ao pedido dos pais e suas consequências para o próprio aluno. Claro que ouvir os pais é importantíssimo para localizar a criança e sua relação com o saber, para saber o que os pais esperam, enfim, como um pano de fundo para o que talvez seja o essencial.
O fundamental me parece ser fazer o que se diz. Se é melhor o construtivismo, o sócio, o tradicional, não importa tanto. Importa sim, se o que a escola diz acreditar, se ela faz.
Por isso, esse "atender" ao pedido dos pais, me parece ser perigoso em relação ao comprometimento com as crenças educacionais. Talvez não seja um pedido tão disparatável. "Faça meu filho um estudante"; "Estimule o desejo de saber de meu filho"; "Faça ele entrar no vestibular".
Pedidos genuínos. A questão que se impõe talvez seja no COMO é atendida a demanda dos pais.
A empresa escola então, presta serviços aos pais e alunos tentando dar conta de atender a demanda dos pais. E os alunos? Como ficam? Essa é uma outra questão, mas o que se impõe agora é o lugar do professor já que le é quem vai tentar dar conta deste atendimento.
Ele, no meio de uma espécie de guerra. Tem que atender ordens de superiores, tem que dar conta de classes com 30, 40 alunos ou mais, tem que dar todo o conteúdo. Já pensaram como ele se sente ao final de um dia? Suas angústias, seus fracassos certeiros. Sim, neste jogo de atendimento de demandas o fracasso é certo já que é humanamente impossível dar conta desta guerra.
Com tudo isso, o aluno é o que mais perde. Perde na relação com o professor que já entra uma pilha de nervos para dar aula, perde então no desejo de saber pois a relação com o professor é o motor do desejo de saber. Na maioria das vezes, não tem como digerir esse excesso, degustar e desejar novos saberes.

A psicanálise e suas aplicações

O setting psicanalítico comporta, via de regra, duas poltronas e um divã. A questão que coloco é a seguinte: Se pensarmos que a transferência seria um motor para o tratamento analítico, não importaria o setting e sua proteção. O tratamento psicanalítico, pode se dar em qualquer lugar desde que exista a transferência e o desejo de saber do inconsciente por parte do analisante e o desejo de análise por parte do analista.
A psicanálise também pode ser aplicada na escola, na política, na cultura...
Neste caso, não seria um tratamento. Seria um viés, um olhar sobre determinado acontecimento, fato, fenômeno, que parte do pressuposto de que o inconsciente existe e diz algo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Aquele que corre

Uma vez um corredor me disse: "gostaria de poder alcançar a condição de correr na velocidade 12km/h." O que ocorre é que esse sujeito teve um personal trainer que lhe transmitiu que para correr mais rápido o corredor deve alternar momentos na corrida entre rápido e moderado. Porém, o sujeito que corre falou: "quando eu corria na esteira, eu sabia a velocidade e como controlá-la. Sem esteira, não sei qual a minha velocidade. Mesmo que possua um daqueles aparelhos que calculam quanto correu, que velocidade, este saber, se dá somente após a corrida.
A questão que coloco é a seguinte: Como treinar para aumentar a velocidade da corrida sem a esteira? Como saber qual a velocidade?
A esteira, nos dá um molde, nos diz como estamos, quanto percorremos, qual a velocidade limite para nós...A esteira nos ensina sobre nossa resistência, possibilidades e limitações.
E na corrida da vida? Quem é a nossa esteira? Podem ser os pais, a babá, tios, avós. E quem nunca teve ou correu em uma esteira? Dito de outro modo? Quem nunca teve uma referência?
Pois bem, me parece que é exatamente o que ocorre neste século de uma maneira geral. Se tivemos um modelo, nos posicionaremos perante ele ou nos iludindo em um ideal que com certeza nunca, NUNCA será alcançado, ou teremos esta referência para irmos em outra direção.

Caso, o sujeito nunca tenha tido a chance de correr ou mesmo caminhar em uma esteira, como fica sua posição no mundo?
O que poderemos saber de nós se a primeira forma de saber de nós mesmos vem do outro? O bebê chora, alguma esteira mãe diz:"está com sono, com fome, triste, com frio." Nesse momento inicial é esse o saber. Isso é o básico. Ter tido uma esteira que dá palavras, nomes.
Partimos para a vida após um repertório mínimo de palavras.
O sujeito que diz: "se tivesse uma esteira, conseguiria correr mais rápido". Esse é o desejo dele.
Se ele tem este saber, se ele sabe que a esteira é um molde e ele sabe pois lhe foi dado, ele pode correr mais rápido por conta própria.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Saídas para o ser do século XXI

Porque um espaço para olhar? Olhar o quê?
Quando estamos envolvidos, misturados com algum saber, alguma verdade, não podemos olhar. Para olhar, precisa de uma distância e consequentemente de um espaço, de uma separação. Acontece que muitas vezes precisamos de uma verdade para nos estruturarmos, temos interesses, necessitamos de uma garantia de que o caminho que percorremos está "correto". Neste caso, não há lugar para questões. Aí que mora o engodo de nós, seres desamparados pela condição humana.
Que acontece quando nos separamos de uma verdade absoluta e instauramos uma dúvida, uma pergunta, um pensamento que procuramos rejeitar?
Angústia. Vivemos em uma época em que não devemos ter angústias. Temos que ser felizes, capazes, eficientes e perfeitos. Este é o ideal do século XXI.
Porém, em nosso íntimo, sabemos que não existem garantias. Não sabemos. Não sabemos quando morreremos, como. Sabemos que o fim é certo.
Perdas são certas, reais. Perdemos pais, amigos,filhos, trabalhos, diversões. Perdemos.
A questão que se impõe é a seguinte: gastar energia dando conta da ilusão de ter garantia ou refletir e trabalhar psiquicamente como lidamos com nossas perdas?
Estar alienado, misturado significa de certa maneira estar no mundo na forma: Eu sou o outro. Já que somos um, eu sou o outro.
Separar, dói. Porém, nos liberta de nossa radicalidade. Nos leva para a vida. A vida que propicia riscos e escolhas. A vida que revela a responsabilidade de nosso gozo, de nossa posição, nosso lugar, nossa topologia.
Perdemos, mas não nos perdemos com nossas perdas. Ao contrário, é aí que nos encontramos simbolizando o que o objeto perdido representou.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Século XXI

Século XXI. Século marcado pelo excesso. Excesso de informações, de violência, de fracassos escolares, de mortes seguidas de homicídios, seguidas de catástrofes naturais, excesso no consumo... excessos.
O excesso demonstra que algo está sobrando, que tem um a mais. Vivemos a falta da falta. A falta parece não existir neste além da conta.
Coloco: Quais as consequências psíquicas da incidência do social, do que vivemos em sociedade em relação á falta?
O que nos impõe o excesso de informações? De que servem? Que saber se trata?
E os fracassos escolares? Não seriam uma forma de dizer que algo vai mal e muito mal?
Como podemos dar conta do que queremos se este século, parece estar marcado pela não falta. Ou seja, se não há falta, não há o desejo.
Que espaço nos resta para desejar?
A clínica psicanalítica não seria um dispositivo "anti social" que instaura uma falta?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

AlienaçãoXSeparação

Dançar. Quem dança na vida? Que metáfora a dança nos proporciona?
Dançar, envolve contato com a música,com o corpo, com a relação com o espaço, com o outro, com o peso do corpo. O contato com a música nos coloca em relação ao ritmo e consequentemente a uma matemática e simultaneamente com uma expressão que se manifesta no movimento.
O dançar implica necessariamente um saber corporal do mais básico ao simbólico. O objetivo pode ser se distrair, brincar ou expressar o que se quer.
A dança africana, necessariamente exige um contato via olhar com o outro. Dança-se só, porém é fundamental a relação com o outro, que se dá via olhar, toque, ir na referência do outro, o outro ir na sua referência. É uma troca, não é só algo que se basta por si mesmo.
Partindo dessas considerações, coloco alguma questões referentes ao olhar psicanalítico:
1)A possibilidade de ouvir a música, pode indicar o quanto o sujeito que dança se separa dele próprio para "incorporar" sua interpretação do que ouviu. Posteriormente ele terá que expressar sua interpretação.
2)Saber do corpo. Que saber se trata? Para sabermos aonde estão os ombros, até onde vão os braços, como se colocar no espaço, precisamos saber até onde vamos, o que temos e onde temos. Sabendo isso, sabemos do nosso lugar topológico. Que metafórico!
3)Olhar o outro. Muitas vezes quando somos o outro não temos como olhá-lo. Olhar envolve separação e saber até onde vai um, até onde vai o outro. Isso significa que precisamos de um espaço, um lugar e um limite.
Proponho o debate em cima deste viés do simbólico, de que a dança traz consigo, algo de metafórico, de dialético, que diz respeito ás operações de alienação e separação. Um tema que pode se abrir é a questão da psicose. Com muita pretensão e non sense: Um tratamento possível da psicose via o dançar. Seria possível?